VINHOS AUSTRALIANOS EM MARÇO/12 NA DEGUSTAÇÃO TÉCNICA DA ACAV
VINHOS AUSTRALIANOS EM MARÇO/12 NA DEGUSTAÇÃO TÉCNICA DA ACAV


Muitos se perguntam como os australianos conseguem manter, de forma consistente, a produção de vinhos extremamente agradáveis de serem bebidos, plenos de frutas, saborosos e acessíveis. A resposta para esta questão pode ser encontrada nas vinícolas australianas, onde os enólogos utilizam técnicas de vinificação muito bem estabelecidas e executadas com extrema maestria. Hoje, estes enólogos, auto intitulados "flying winemakers", estão viajando por todo o mundo, ensinando estas técnicas a outros produtores, mesmo em países com enorme tradição na produção de vinhos. Estas técnicas incluem o rigoroso controle de higiene em todo o processo de vinificação, uso de tanques de aço inoxidável com controle de temperatura para a fermentação do mosto, uso de leveduras selecionadas, uso maciço de madeira por curtos períodos de tempo, mistura de uvas de diferentes regiões vinícolas e eventuais correções na acidez do mosto, durante a fermentação alcoólica. Esta sumária descrição de técnicas é na verdade uma simplificação grosseira do que realmente ocorre e se aplica primariamente à grande maioria dos vinhos australianos, que são produzidos em quantidades relativamente grandes, com uvas colhidas invariavelmente por meios mecânicos. Os grandes vinhos australianos costumam ter um processo de vinificação bem mais elaborado e complexo, sendo cada vez com mais freqüência a expressão de determinados "terroirs". Hoje na Austrália existem cerca de 800 vinícolas, porém apenas quatro grandes companhias vinícolas, que respondem por cerca de 80% dos vinho produzidos: BRL Hardy, Mildara-Blass, Orlando e Southcorp Wines. A maior restrição que os puristas fazem aos vinhos australianos é que os mesmos não possuem identidade própria, sendo muito parecidos entre si, não expressando diferenças de região ou microclima. Talvez haja uma dose de razão neste tipo de crítica, porém a elevada qualidade de grande parte dos vinhos australianos, sua enorme disponibilidade na imensa maioria dos casos e sua imbatível relação custo/benefício talvez expliquem de maneira convincente o enorme sucesso que estes vinho vêm obtendo em todo o mundo. Como já foi dito, há um forte movimento na Austrália para a produção de vinhos com maior caráter individual, porém estes serão sempre a minoria e certamente terão que cobrar um alto preço pela exclusividade.

História

Em 1788 a primeira videira foi trazida do Cabo da Boa Esperança para a Austrália, pelo seu primeiro governador, o Capitão Arthur Phillip, sendo plantada em Farm Cove. Nesta época, a produção de vinhos, devido a vários fatores negativos, não foi adiante.

Entre 1820 e 1840 a viticultura comercial foi sendo progressivamente instalada, inicialmente em New South Walles e depois sucessivamente na Tasmânia, Western Australia e finalmente em South Australia. Ela se baseava em vastas coleções de Vitis Vinífera importadas da Europa, já que não existiam espécies nativas na Austrália e também não houve cruzamentos ou produção de híbridos no país. A phylloxera atacou as videiras da Austrália em 1877, a partir da região de Geelong, provocando uma mudança no perfil de utilização das terras. A produção de vinhos secos foi gradualmente diminuída, sendo substituída pela produção de vinhos fortificados. Nesta época também se instituiu o sistema de irrigação das videiras. Deve-se notar que a phylloxera nunca afetou a região de South Australia, assim como as principais áreas de New South Walles, porém permanece ativa até os dias de hoje na região de Victoria.

Em 1930, a região de South Australia produzia cerca de 75% dos vinhos da Austrália, tendo o Barossa Valley se tornado o principal centro de produção, processando não apenas suas próprias uvas, mas também as produzidas na região de Riverland. Entre 1927 e 1939, principalmente pelas facilidades criadas pela coroa britânica, a Austrália exportou mais vinhos para a Inglaterra, em sua maioria vinhos fortificados, do que a França.

A indústria nos moldes de hoje começou a tomar forma nos meados dos anos 50, com a introdução da fermentação dos brancos a frio, em tanques de aço inoxidável, com a mudança das grandes companhias para a região de Coonawarra e uma década depois para Padthaway e com o declínio da produção e do consumo dos vinhos fortificados, em contraste com o espetacular crescimento do consumo de vinhos tintos de mesa, seguido pelo aumento de consumo dos vinhos brancos.

Em 1970 introduziu-se o uso de barris de carvalho, as varietais Cabernet Sauvignon e Chardonnay e as vinícolas "high tech", além de ter-se restabelecido a viticultura no sudeste da Austrália, na região de Victoria. Desde então a vinicultura australiana não tem parado de crescer, produzindo vinhos e extrema qualidade e refinamento.

Clima

Apesar da imensa dimensão territorial da Austrália, pode-se dizer, de maneira simplificada, que existem dois padrões básicos de clima naquele país: um que afeta as regiões de Western Australia, South Australia, Victoria e Tasmania (todos ao sul), e outro que afeta Queensland (a nordeste) e New South Walles (a sudeste).

O primeiro caracteriza-se por apresentar chuvas no inverno e na primavera, com verões secos e outono precoce, com temperaturas diurnas variando entre 25oC e 35oC, com pouca influência marítima. Há uma distribuição uniforme do calor na região dos melhores vinho, fator que se acredita ser um dos principais responsáveis pela qualidade dos mesmos.

Na outra área o padrão é mais tropical, com chuvas mais intensas, temperaturas mais elevadas, com maiores teores de umidade relativa do ar.

Viticultura

Os tipos de uvas mais plantados são: Shiraz, Cabernet Sauvignon, Grenache, Pinot Noir, Sultana, Muscat Gordo Blanco, Chardonnay, Riesling, Semillon e Colombard. As uvas são transportadas por todo o país, desde as regiões produtoras até as vinícolas, em caminhões equipados com sistema de refrigeração, garantindo desta forma a total integridade da fruta em trajetos que podem ser bastante longos.

Solo

O solo da Austrália é bastante variável, não sendo possível fazer qualquer tipo de generalização.

Vinificação

O principal diferencial da vinicultura australiana reside em suas sofisticadas e muito bem equipadas vinícolas, com modernos e eficientes sistemas de refrigeração (das uvas e do mosto, no caso dos vinhos brancos), tanques de aço inoxidável com controle de temperatura (muitas vezes por intermédio de computadores), equipamentos para processamento das uvas e do vinho (esmagadores, desengaçadores, prensas, filtros, etc) geralmente de origem européia, além de equipamentos de autovinificação (Vinomatic).

Também são adotadas medidas de higiene extremamente rigorosas, durante todo o processo de vinificação. Até este ponto, não há grandes diferenças com o que tem sido utilizado pelos melhores produtores em todo o mundo. A grande e principal diferença está na maneira que os enólogos australianos utilizam o equipamento e a tecnologia a ele associada. Os principais objetivos destes enólogos são obter a máxima preservação do caráter e do sabor da varietal utilizada, além de uma textura macia, procurando tornar os vinhos, tanto brancos como tintos, bastante acessíveis. A maturação destes vinhos é invariavelmente realizada em tonéis e barris de carvalho. Ainda visando atingir estes objetivos, são importantes a utilização de leveduras selecionadas, tanto na fermentação alcoólica quanto na maloláctica, o rigoroso controle da temperatura de fermentação (12oC a 14oC para os brancos e 22oC a 25oC para os tintos, mais baixas portanto que as usuais), o uso de fermentação em barris de carvalho para os brancos e em modernos tanques de fermentação para os tintos, além da utilização de uvas fisiologicamente maduras. Curiosamente, o uso da maceração prolongada não é tão comum quanto na Europa ou nos Estados Unidos, pois os enólogos australianos acreditam que este processo tende a diminuir os aromas e sabores do vinho.

O carvalho francês é o preferido no caso dos melhores vinhos brancos, para a Cabernet Sauvignon e para a Pinot Noir, sendo o carvalho americano mais utilizado para a Shiraz, para os cortes de Shiraz e Cabernet e para alguns poucos vinhos de Cabernet Sauvignon.

No caso de vinhos de menor qualidade tem aumentado o uso de "chips" de carvalho, em conjunto com tonéis antigos, uma prática suspeita e pouco recomendável.

A procura de um vinho mais natural tem levado a uma drástica redução do uso de produtos químicos, tanto nos processos de cultivo da uva quanto na vinificação. Ainda assim, a adição de ácido tartárico para correção da acidez é permitida pela legislação, sendo feita (quando for o caso) durante a fermentação alcoólica. A chaptalização (adição de açúcar ao mosto com a finalidade de aumentar o teor alcoólico do vinho) é expressamente proibida, mesmo nas regiões mais frias.

O uso de dióxido de enxofre tem sido gradativamente reduzido, já existindo vinhos tintos produzidos sem qualquer adição do mesmo, cabendo aos taninos a função de proteger o vinho.

Sistema de Classificação dos Vinhos

A Austrália já possui todo um conjunto de leis e regulamentos para instituir um sistema de Apelação Controlada, nos moldes dos existentes em diversos países da Europa, tais como França, Espanha e Itália, dependendo apenas da delimitação das regiões. No entanto, até os dias de hoje esta organização ainda não está funcionando na prática, exceto em algumas pequenas regiões como Mudgee e Tasmânia. A região de Victoria está tentando instituir um mecanismo de autenticação de seus vinhos e o Hunter Valley introduziu recentemente um sistema chamado de "Accreditation". Hoje funciona na Austrália um programa de controle chamado LIP (Label Integrity Program), que garante a veracidade das informações contidas nos rótulos e contra-rótulos dos vinhos australianos, que diga-se de passagem são de fácil leitura e compreensão, além de bastante informativos.

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